Três horas da tarde

Por mais que as gaivotas voem, as três da tarde já lá vão

(que horas são?)

à muito que as perdi no relógio, no tempo, na alma. Na rua ainda mora o cheiro das despedidas, de um eterno voltar de costas sem considerações ou arrependimentos marcados na calçada, da saudade cuspida na estrada

(onde estão as horas?)

e pergunto pelas três horas da tarde, pelos pássaros que nos sobrevoavam em jeito de adeus, fugiram para o sul

(talvez estejas por lá, depois das três horas da tarde)

quem saiba em busca de algo. Numa mão lançada à cara escondendo os olhos com o intuito de afastar qualquer sentimento de culpa, a verdade é que quando voltei a olhar para a rua já lá não estavas, passavam das três horas da tarde. Dêem-me outro nome e outra hora, arranquem-me o teu nome da minha boca, tirem-me a pele que tanto tocaste e abraçaste durante as três horas da tarde, sorvam-me os lábios que trincaste com tanto amor porque o amor só dura até às três horas da tarde

(onde estás? que horas são?)

e não sei de ti, nem como estás. Quantas três horas da tarde já passaram e tu longe de mim

(quem saiba no mar)

mergulhada nas profundezas marinhas num corpo de sereia em busca das maravilhas escondidas nos corais, por entre a escuridão e a luz que te leva por novos rumos para lá das três horas da tarde. Abrigo-me por debaixo do alpendre, onde te pedi que voltasses para mim ainda antes das três horas da tarde, porque aqui já chove e nada mais me resta se não esperar que um pingo de chuva te traga depois das três horas da tarde.

Percorro as ruas do teu corpo como um cavalo que galopa pelos prados, que fita serenamente as grandes nuvens escuras e apressadas, como um cavalo que foge e se escondo do medo por entre as linhas da folha condenada ao desejo e saudade, falece em cada palavra, em cada trotar

(não sei escrever)

quero
peço que me voltes a mostrar as avenidas molhadas iluminadas pelas luzes laranjas dos candeeiros e cobertas de pequenas gotas de chuva, todas elas diferentes e tão perfeitas em formas circulares mais ou menos visíveis a olho nu, que me leves aos becos das pracetas desertas e me encostes ao canto segurando-me as mãos trémulas exigindo olhares puros e sinceros possíveis de penetrar nos teus olhos castanhos cor de avelã, me oiças respirar ofegantemente enquanto morro de amor, te aproximes com os teus lábios

(parecem ondas do mar que morrem nas rochas)

com o teu rosto esculpido por Deus numa das suas horas de maior genialidade, que me possuas nos bancos do teu jardim, me agarras calorosamente sem a intenção de algum dia me largar ou ter sequer a coragem de perceber que o meu coração não mora mais em ti, perdera-se

(o amor é muito mais que um sonho?)

nessas ruas que cobrem o teu corpo.



Se Deus [realmente] existe, então o "homem" tem que ter um propósito para a vida. Caso contrário, não existiria ou então seria demasiado cruel.

Não percebo como é que o tempo levou os rostos, feições que tanto demorara a ser construídas e preservadas nas nossas memórias. Mas quem é esse a quem devemos servi-lo com fé e dedicação? Que devemos respeitar e não questionar os seus desígnios? Não sirvo ninguém, muito menos uma presença que não se mostra e se oculta por detrás de velhas (e gastas) história criadas por não sei bem quem.

(E tu e eu, nada mais nos restou se não nos despedirmos com o mar nos olhos e seguir os caminhos que esse mesmo ditou num qualquer dia de chuva.)
Quis percorrer o teu rosto com uma pena de gaivota que, por acaso, encontrei no outro dia na praia, cruzar as pontas dos meus dedos na suavidade dos teus olhos castanhos, olhando para o infinito

(ou quem saiba um ponto definido…)

incertezas que te cobriam numa enorme bolha de sabão, num manto de lágrimas que silenciam as vozes que deixam de existir no silêncio dos quartos com vista para a praia onde as ondas morrem nas arribas e nas cabanas dos pescadores

(os peixes gritaram pelo teu nome)

porque só eu e mais ninguém sabe o que vi e senti da janela da pensão, as sombras que as nuvens fizeram no mar e as gaivotas juntas numa rocha seca, os ventos vindos do nordeste das traseiras da pensão, as madeiras que chiavam trazendo os murmúrios esquecidos nos álbuns das fotografias, e eu que quis tocar-te aqui e ali, dedilhar os botões da tua camisa, e mostrar o teu peito inteiro ao vento, ao mar, às gaivotas e arribas, às ondas e aos pescadores, percorrer os vales que erguias e aí poder-me esconder no meio deles, sem que nada me pedissem ou exigissem. Dedilhar os teus peitos voluptuosos como quem dedilha a harpa de um anjo qualquer procurando corações perfeitos muito para lá da linha do horizonte e sentir o corpo que te deram, as curvas que em ti criaram num caminho perfeito até ao fundo da noite.


Porque há saudades que não se perdem nem se esquecem as grandes conquistas de uma vida. Sempre estranhei o porquê de admirar da janela do meu quarto, os cavalos que percorriam a quinta num galope inconstante nessas tardes de Outono, em que não se sabia se chovia ou se fazia sol. A verdade é que as árvores se despiam para mim numa dança ritmada pelo saber do vento, trazendo as folhas secas e rugosas até ao pequeno rapaz que observava o mundo da sua janela e

(seria o mundo?)

por ali passavas e, hoje, não sei o que te aconteceu; onde te perdeste e com quem. Recordo os tempos em que nos cruzávamos como perfeitos desconhecidos sem repararmo-nos e muito menos observar as sombras que se abraçavam entre nós num silêncio militante e comprometedor. No seio da juventude, ainda nem provara o sabor de uma mulher e aos poucos percebia que me desejavas à tua maneira meticulosa e verdadeira,

(como é que se sente?)

deixando para trás qualquer tipo de medo, de rejeição ou sentimento de vergonha. Confesso que não percebi que existias até compreender que me querias; ansiavas que fosse teu e que te fizesse feliz num simples punhado de palavras

-Abraça-me

e com raras trocas de carícias. Assim foi, trocávamos olhares ferozes de paixão em sorrisos (demasiado) tímidos como a idade permitia.

(não sei mesmo o que é feito de ti…)

Longínquos e em mundos opostos, recordo os momentos inventados e rascunhados que me acompanham e causam tormentos na alma impura e decepada pelas tristezas de tanto que ficou por cumprir. Cada memória é editada de forma única e exclusiva; esqueço um pormenor, recordo outro, acrescento um e quem saiba se não existe outro, nas recordações de nós ficará sempre uma história que não esqueci

(ou criei?
terá sido um sonho ou realidade?)

demoro a encontrar-me nos enormes labirintos do meu corpo, sedentos de ti e da tua respiração ofegante

(ainda me lembro quando roçavas o teu nariz perfeito e redondo no meu pescoço e te atrevias e sussurrar pelo futuro
- Amo-te
que não chegou a nascer)

cortando-se no fim do meu pescoço, espalhando-se pelo resto do corpo.

Merda da saudade, das metáforas espalmadas, das saudades e das reflexões profundas e constantes, merda das aflições e das ânsias de querer dizer aquilo o que nunca ninguém disse e fez; posso falhar e o que farei dos remorsos?

Puta da ambição e daquilo que está demasiado distante e não posso tocar, do homem comum e da poesia que não consegue exprimir aquilo que sinto, das transformações e tremores de terra que ocorrem no meu interior, putas das vozes dos meninos que andam nos baloiços e que dão as mãos na rua, que se matam com violência exigindo o amor que ninguém lhes dá, putas das paixões enterradas numa urna perdida num cemitério inconsciente, sem vozes e sem esperança.

De olhos fechados vejo a realidade

(a realidade existe neste mundo de ilusão?)

e solto a loucura que mora em mim.