Published by Bill Stein Husenbar under on 9:34:00
(ou não queres ouvir?)
Blog que retrata a vida marcante de um psicólogo austríaco de seu nome Bill Stein Husenbar. Memórias, frases, desabafos, relatos e experiências são contadas e partilhadas na primeira pessoa, neste blog
Tenho uma onda no mar que procura por ti a cada esquina das rochas. Um som, um suspiro, uma voz que nasce nos desânimos e no jejum das palavras que ferem a compaixão e ânsia dos nossos abraços selvagens. Entre as difusões dos nossos reinos ruídos no meio do malhadouro, a fé e a luz esqueceram-se de nascer por detrás da montanha e os velhos exércitos perceberam que nenhuma oração incessante era capaz de erguer aquilo que se perdera outrora na linha do tempo. E por mais que a multidão se prenda com a paisagem, jamais se poderá espalhar o amor por toda a gente porque nenhuma espada conseguirá voltar a ser erguida e ter forças suficientes para lutar contra aqueles tristes que vão morrer na praia…
Há quanto tempo eu não me sentava aqui
(será que alguma vez me sentei?)
neste banco de madeira gasto, partido e com vista privilegiada para um monte composto de relva seca.
Lá ao fundo, ele volta e parte. Ciclicamente, repete o mesmo ritual quer chova ou faça sol. Há anos que isto acontece; o pobre coitado não se cansa de dar infinitas voltas ao jardim como quem procura algo ou alguém perdido numa qualquer fresta entre as pedras da calçada. De óculos escuros, (já te lembraste, mais alguma vez depois de ela partir, de limpar as lentes?) miras o chão com aquele teu típico descontraído mas eu sei bem que desde a partida dela para um ponto desconhecido do Universo, onde as horas à muito que já morreram, os ponteiros partiram-se num qualquer quarto de hora de tempo já esquecido. Os óculos já não o deixam ver nem o sol ou a lua; os dias correm num pano de fundo completamente escuro à excepção de uma risca que lhe traz uns poucos mas ainda vistosos raios de luz a que ele gosta de chamar saudade. Maldita definição para algo tão complexo. Paradigmas da vida… Sempre te avisei para não te envolveres demasiado com elas, mas tu achaste que o epicurismo não servia para a vida nem para o teu amor de uma vida,
(Sentaste-te e não sei se foi por teres ouvido os meus murmúrios sobre ti ou se te lembraste que o braço dela já não mora no teu, que a união das mãos perdera-se para todo o sempre)
não me ouviste ou negaste em silêncio, lá terás pensado em contrariar-me com a sábia frase de que os mais velhos têm mais experiência. Enganas-te, nem sempre é assim e em conversas de amor todos somos inexperientes. Tal como a morte, aquela que nunca pensaste que um dia chegaria até tu vê-la a partir do teu regaço. Escusas de caminhar cabisbaixo porque ninguém te vai trazê-la, nem mesmo aquele Deus que tu veneravas e acreditavas piamente na sua existência,
(onde está ele quando tu precisas dele?)
não será ele que te trará novamente aqueles olhos cor de avelã, cabelo acastanhado, de mãos finas e suaves que te tocavam o rosto como um rio que embatia docemente contra as margens, nem a boca ou os lábios que tanto admiravas quando ela falava como se tivesses encontrado um qualquer maravilha do mundo… Senta-te aqui comigo, neste
(Teu?)
banco do velho jardim e vamos admirar os anos distantes
(já passados mas não esquecidos)
em que tu e eu amámo-la com a plenitude das nossas forças.
Deixa-me ser sombra do teu corpo,
Dos teus dedos, alianças,
Dos cabelos que voavam ao sabor do vento
Como as manadas que subiam fogosamente a montanha
À procura de algo que nós não entendíamos (eles lá saberiam porquê),
Ser a sombra do teu sorriso,
Do teu olhar cor do mar transparente e do cetim.
(responde-me…)
Deixa-me provar-te e sentir os teus lábios suaves
Como penas de uma qualquer ave em vias de extinção.
Em ti já não respiro; sufoco-me com o teu corpo.
Vejo-te sim,
De longe, sorrindo para o sol como já me tivesses esquecido
Como eu já não tivesse mais brilho e cor para dar
(Que tem o sol de tão especial, explica-me!)
Ele não te pode dar lágrimas de chuva…
De que valerás estar em mim se há muito tempo
Que já não moro em ti, que a cama está vazia e
Teu calor já se perdeu no meio dos lençóis…
Que histórias queres que te conta para trazer de volta ao meu
Castelo?
Lembras-te daquele rei que um dia se perdeu na floresta
À procura da sua amada, que o desprezava?
E que vai ser feio dos retratos e das molduras que empunham
Grandiosamente os nossos sorrisos falecidos
Num qualquer caixão da nostalgia e do remorso?
(Não será assim que todos os caixões são?)
Que me vale seguir os cavalos que, desesperadamente, subiam
Ao cume? Não te espero encontrar por lá…
Que me vale a ousadia, as rédeas dos potros brancos,
Da aventura de descobrir algo novo?
Perdi a coragem, o toque, o poema e não tardou muito
A espada (do velho rei da floresta) castigar-me com um golpe fundo
No coração dorido de amargura.
Vou sim,
Para longe de ti compreender que a dor é um sofrimento
Que vive em forma crescente.
Terei saudades dos nossos (velhos?) vulcões de paixão…
Adeus

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