Tens tudo o que eu preciso, aquilo que um dia eu sonhei para mim. E não fosse o destino, ainda hoje

(realmente, não sei se alguma vez cheguei a ser)

seria teu e calaria essa voz de revolta que me abafa a alma. Criança alucinada e perdida, explode coração pois não há paredes que neguem o meu amor por ti, janelas que esqueçam que ainda sou teu e

esquece tudo, mas não negues que um dia fui teu e nos tornámos loucos de prazer pelos perfumes, carícias e toques repletos de de ousadia num lugar distante deste mundo.



Porque há ruas assim, grandes demais senão infinitas na sua largura… Demasiado infinitas quem saiba, amplas e espaçosas transformadas em avenidas escuras, sombrias e frias, repleta de vultos negros e cinzentos num mundo de criações e ilusões, transformista de fantasias e magia

(onde me posso esconder?)

olhem para mim e não tenham aversão apenas por gostar de recordar os momentos mais felizes que tivemos, gritar bem alto que te amei, beijei e abracei até

(merda, lembrei-me do teu nome, do meu passado…)

juntos fomos sofrendo e amando no silêncio dos beijos, dos trompetes que invadiam os boleros das gotas da chuva, nas lágrimas das viúvas que passei pela areia da praia em busca da onda perfeita e mergulharem na própria solidão.



A minha boca arrepende-se de cada palavra que ficou por dizer, de cada gesto que não te marcou ou quem saiba dos momentos em que perdemos os beijos nos olhares eternos,

(apago a luz)

e há medo espelhado nos rostos escuros, cravados em retratos erguidos nas paredes manchadas pela humidade que o Inverno traz, pela chuva que traz o teu nome em direcção à janela. Em cada brisa, um bilhete amachucado nas frestas do coração que invade a alma e tudo mais o que ficou vazio, tu levaste

(que lhe fizeste?)

não me trouxeste o teu perfume, deixaste-me na companhia dos retratos, das caras pálidas daqueles que tanto esperaram por um bilhete numa fresta da casa, que me olham e esperam que os surpreenda mas nada mais sei do que viver com este desassossego que me acompanhará até ao fim dos meus dias. Nada temo do que os velhos e gastos possam pensar, não me preocupa que os desiluda mas sim a tua

(longa e eterna)

ausência. Viverei atormentado nesta ilusão de te voltar a ter um dia…


Volto a ter saudades tuas.

Enquanto neva lá fora, uma inquietação ardente abate-se sobre mim em plena escuridão da morte, os nomes ecoam nas memórias

(ainda vivas)

de ti, os beijos estremecem, a mão engana-se, torna-se cega e envergonha-se das poucas palavras que caracterizavam os nossos beijos.




Três horas da tarde

Por mais que as gaivotas voem, as três da tarde já lá vão

(que horas são?)

à muito que as perdi no relógio, no tempo, na alma. Na rua ainda mora o cheiro das despedidas, de um eterno voltar de costas sem considerações ou arrependimentos marcados na calçada, da saudade cuspida na estrada

(onde estão as horas?)

e pergunto pelas três horas da tarde, pelos pássaros que nos sobrevoavam em jeito de adeus, fugiram para o sul

(talvez estejas por lá, depois das três horas da tarde)

quem saiba em busca de algo. Numa mão lançada à cara escondendo os olhos com o intuito de afastar qualquer sentimento de culpa, a verdade é que quando voltei a olhar para a rua já lá não estavas, passavam das três horas da tarde. Dêem-me outro nome e outra hora, arranquem-me o teu nome da minha boca, tirem-me a pele que tanto tocaste e abraçaste durante as três horas da tarde, sorvam-me os lábios que trincaste com tanto amor porque o amor só dura até às três horas da tarde

(onde estás? que horas são?)

e não sei de ti, nem como estás. Quantas três horas da tarde já passaram e tu longe de mim

(quem saiba no mar)

mergulhada nas profundezas marinhas num corpo de sereia em busca das maravilhas escondidas nos corais, por entre a escuridão e a luz que te leva por novos rumos para lá das três horas da tarde. Abrigo-me por debaixo do alpendre, onde te pedi que voltasses para mim ainda antes das três horas da tarde, porque aqui já chove e nada mais me resta se não esperar que um pingo de chuva te traga depois das três horas da tarde.

Percorro as ruas do teu corpo como um cavalo que galopa pelos prados, que fita serenamente as grandes nuvens escuras e apressadas, como um cavalo que foge e se escondo do medo por entre as linhas da folha condenada ao desejo e saudade, falece em cada palavra, em cada trotar

(não sei escrever)

quero
peço que me voltes a mostrar as avenidas molhadas iluminadas pelas luzes laranjas dos candeeiros e cobertas de pequenas gotas de chuva, todas elas diferentes e tão perfeitas em formas circulares mais ou menos visíveis a olho nu, que me leves aos becos das pracetas desertas e me encostes ao canto segurando-me as mãos trémulas exigindo olhares puros e sinceros possíveis de penetrar nos teus olhos castanhos cor de avelã, me oiças respirar ofegantemente enquanto morro de amor, te aproximes com os teus lábios

(parecem ondas do mar que morrem nas rochas)

com o teu rosto esculpido por Deus numa das suas horas de maior genialidade, que me possuas nos bancos do teu jardim, me agarras calorosamente sem a intenção de algum dia me largar ou ter sequer a coragem de perceber que o meu coração não mora mais em ti, perdera-se

(o amor é muito mais que um sonho?)

nessas ruas que cobrem o teu corpo.