Soltou um suspiro e virou costas ao mundo, entrando no quarto. Trancou-se ao que parece. Nada se vê da ranhura da fechadura tapada com uma peça de roupa desconhecida

(não quer que o veja)

que ele à muito que não usara muito menos lavara. Oiço gritos, vozes ou gemidos do quarto solitário mas não temo, é normal sermos levados à loucura quando percebemos que não existe nem esperança nem uma luz que nos leve ao paraíso. Ali dentro, não há definição do tempo; as memórias do passado são demasiado intemporais quanto mais esquecer os fios de cabelo daquela que amamos com todas as nossas forças. Estrondo seco mas violento… Caiu no chão e dali não mais se levantará, certamente, há quem diga que finalmente já se terá convencido que não é de ninguém, apenas de um amor perdido numa esquina, de um qualquer tipo e que perdura

(ainda? Maldita obsessão…)

no seu interior. Deseja que ela jamais o esqueça e que concretize o seu amor por ele mas, o pobre coitado não entende que o amor vive-se a dois corpos, a um ritmo marcado pelo estilo estusiástico e galopante dos corações, da união dos lábios marcados pela sede do anseio e da paixão. Tenta achar um meio de explicar essa culpa que se exacerba cada vez mais, solta gritos silenciosos na noite, perde o sono, tem medo de sair à rua pois teme que o vento lhe leve algo do pouco que lhe resta, deseja que ela olhe para a imagem dele

(achas que ela ainda se lembra de ti ou da tua imagem?)

e veja um sorriso na moldura. Queres uma resposta dela, uma lágrima de felicidade mas também de saudade, uma memória retirada de um vazio oculto mas enganas-te. As vidas trocaram as voltas e mais voltas, e resta-te ficares em agonia, nesse teu quarto ou confessionário como lhe preferires chamar se é que nunca foste muito adepto da proclamada “fé” , até teres

(será que alguma vez terás?)

um sinal daquela por quem te tornaste obcecado e doente mal lhe sentes o perfume.